Pois é, desta vez com nomes e datas.
E agora? Alguém tira consequências ou vamos continuar todos a assobiar para a atmosfera?
Como sabemos os alunos não são mal educados. São rebeldes, opinativos, críticos e divergentes. Ensaiam-se em exercícios de democracia legítimos e enriquecedores como chamar ladrão à mais alta figura do Estado, que entretanto falhou a saída da rotunda e avançou…mas ao contrário, e a empunhar cartazes para a legalização das drogas, a gritar palavras de ordem antifascistas e outras coisas altamente credibilizantes. Porque o Presidente não recua, nunca recua, mesmo quando tem gente à sua espera. Quem fez então o Presidente recuar? Um grupinho numericamente insignificante quando comparado com os 1200 alunos de toda a escola e que, aliás, faltaram às aulas para fazer aquela triste figura. Muitos manifestantes não eram sequer daquela escola soubemos pelo seu director. De onde eram então? Ninguém sabe mas todos presumimos. A ver pela qualidade dos cartazes não eram, tão pouco, os mais artisticamente dotados. Se continuarem a faltar às aulas vão continuar a não ser...
A Escola António Arroio é para os políticos uma escola muito difícil. Não que seja hoje uma escola politizada. Mas durante muito anos foi um antro político do Partido Comunista. A JC achava que aquela escola era sua e assim organizava, a partir do seu interior, eventos políticos / artísticos, colavam cartazes e enchiam a escola de lixo. Hoje já não existe nada disso, pelo menos dentro da escola. Agora há paredes brancas e trabalhos de grande qualidade feitos pelos alunos com uma apresentação cuidada e apetecível. Nem um grafiti sequer. Fora da escola, sim, há quem insista em acções de contaminação e agitação, como foi o caso, a que Cavaco Silva fez questão de dar uma visibilidade desproporcionada, o que nem Sócrates conseguira. Hoje a população escolar é muito mais heterogénea no plano ideológico e social embora naturalmente se entorne sempre para o lado esquerdo quando o caldo se agita, o que torna estes alunos mais susceptíveis a acções de circo como as da semana passada. Da exposição dos trabalhos dos alunos ninguém viu porque ninguém mostrou. Aliás a televisão não mostrou nada, a não ser uns coitados a comer sandes porque não tinham refeitório. Portanto não tinham onde comer? Não. Têm provisoriamente o refeitório da escola básica a 200m de distância que não usam porque não querem. A escola António Arroio está a ter obras de mais de 22 milhões de euros, quase terminadas, eles protestam; Têm o custo de funcionamento mais caro por aluno, a nível nacional, e eles protestam; Têm estúdios de cinema e fotografia, joalharia, azulejaria, tecelagem, tipografia, laboratórios vários, dois pavilhões desportivos, imacs de última geração, e eles protestam. Há um ano e meio estava a escola a funcionar em contentores, hoje têm tudo novo e eles protestam. Quanto aos outros alunos, os que produziram o trabalho da exposição e aos professores que os apoiaram, esses foram os verdadeiros abandonados pelo senhor Presidente. Se abandonamos o espaço que é nosso ele fica vazio e pronto a ser apropriado por alguém. E custou tanto a desocupar. Senhor Presidente, não se engane outra vez na rotunda. Pode ter gente à sua espera…
Mad Season, o projecto paralelo do grande Layne Staley dos Alice in Chains, que morreu em 2002. Faziam ainda parte Mike McCready dos Pearl Jam, Barrett Martin dos Screaming Trees e John Saunders, também falecido em 1999. Apenas lançaram este álbum, Above, mas valeu bem a pena.
Arrisco a dizer-me que esta é a campanha presidencial americana mais instável da história. Nada menos do que cinco candidatos já lideraram as sondagens nacionais em certo período: Romney, Perry, Cain, Gingrich e Santorum. O único indicador constante é que Mitt Romney nunca se afundou e tem sido primeiro ou segundo das sondagens. Mas estes indicadores não deixam de evidenciar a fragilidade de Romney, que tem sido apontado por todos os analistas como principal, ou até talvez, o único candidato que pode vencer estas primárias. Poucos entres elites republicanas imaginam um dos outros candidatos a defrontar Barack Obama em Novembro. Ninguém deseja que se repita o cenário de 1964, quando Barry Goldwater foi cilindrado por Lyndon Johnson.
No próximo dia 28 Romney tem uma batalha decisiva para arrancar para a vitória. Caso não vença no Arizona e principalmente no Michigan, o seu estado natal, os alarmes vão soar em Washington entre as elites. Não por acaso, voltou a falar-se numa entrada tardia de um outro candidato. Não que seja um cenário muito credível, mas muito periogoso para Romney. Com o apoio do establishment, com muito mais dinheiro e recursos do que os seus adversários, Romney tem demonstrado uma incrível fragilidade. Está certo que se for o nomeado, esta corrida poderá ser esquecida, até porque Romney é muito mais um candidato de eleições gerais do que de primárias, onde os sectores mais conservadores têm um enorme peso. E está provado que ele não consegue atrair este eleitorado. No entanto, há alguns sinais positivos para ele. No Michigan, as recentes sondagens indicam uma ligeira recuperação para ele, na imprensa conservadora começam a aparecer muitas histórias negativas para Santorum (o Drudge Report destaca imensas) e talvez o poderio financeiro consiga arrancar uma vitória no Michigan, à semelhança do que sucedeu na Florida. Mas não tenhamos dúvidas: se Romney deseja ter hipóteses contra Obama, se chegar lá, precisa de ser um candidato muito mais eficaz. O que não tem acontecido.
Dois meses depois do lançamento do satélite Sputnik (realizado em Outubro de 1957), os EUA sentem a obrigação de dar uma resposta à URSS, mas o resultado é o seu momento Kaputnik (a tentativa de colocar em órbita o Vanguard TV-3), nome com que ficou conhecido este fiasco.
Em 1957 o presidente Eisenhower também estava preocupado com a contenção orçamental, e ao contrário de Obama não tinha para os americanos um discurso muito entusiasmante. Face ao desafio espacial lançado pelos russos, dizia com alguma ironia: “Gostaria de saber o que está do outro lado da lua, mas não vai ser este o ano que vamos pagar para ver”. Faz um ano que Obama lançou o seu “momento Sputnik”.
Os ministros e secretários de Estado do Governo de José Sócrates pagaram despesas com cartões de crédito e verbas do fundo de maneio dos gabinetes, sem que haja rasto do dinheiro nos orçamentos dos seus ministérios. Na prática, como já deixou claro o Tribunal de Contas, o cartão de crédito funciona como um suplemento remuneratório. A ex-ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, e o ex-ministro da Justiça, Alberto Martins, tinham cartões de crédito com um plafond mensal de cinco mil e quatro mil euros, respectivamente. Com o salário, despesas de representação e regalias como cartão de crédito, fundo de maneio e telemóvel, a remuneração de um ministro rondava os 10 mil euros mensais.
Não sendo eu defensor da teoria, muito popular nos dias de hoje, que os políticos ganham demasiado, também não posso estar de acordo com este tipo de práticas que são descritas no Correio da Manhã. Pela notícia percebe-se que era uma prática corrente em todos os governos. Também por isso tenho de aplaudir a atitude deste governo, que acabou com esta situação. E não foi, como é normal em Portugal, depois desta prática ter sido revelada. A decisão do governo em cortar com os cartões de crédito dos governantes foi tomada imediatamente após a tomada de posse. Uma medida moralizadora que deve fazer escola.
«Portugal has met every demand from the European Union and the IMF. It has cut wages and pensions, slashed public spending and raised taxes. Those steps have deepened its recession, making it even less able to repay its debts. When it received a bailout last May, Portugal’s ratio of debt to gross domestic product was 107 percent. By next year, it is expected to rise to 118 percent. That ratio will continue to rise so long as the economy shrinks. That is, indeed, the very definition of a vicious circle.»
[Europe’s Failed Course, o editorial do New York Times de 17.2.2012]
Foi durante o período de deslumbramento com a Europa, do facilitismo financeiro, do bem-estar social e da política com coração que se pôs fim ao Serviço Militar Obrigatório (SMO) em Portugal, com a Lei nº 174/99, de 21 de Setembro de 1999 (foi aprovado na AR, com votos a favor do PS e do CDS-PP, votos contra do PCP e a abstenção do PSD). Foi uma decisão que premiava o activismo das juventudes partidárias na causa, com o objectivo de fazer render votos no eleitorado jovem.
A defesa pública do fim da conscrição foi realizada quase sempre sem contraditório, mas sobre o tema pronunciaram-se “os escribas do povo” e verdade seja dita, muito poucos tiveram a coragem de manifestar a sua oposição. Um dos poucos que teve o atrevimento de criticar frontalmente a aliança oportunista das juventudes partidárias e a passividade dos partidos foi o José Pacheco Pereira; nada mais digno de nota. Sem pensarem no futuro e sem fazerem contas, à excepção do PCP, da esquerda objectora à direita liberal quase todos patrocinaram e aprovaram o fim do SMO. Mas o desejo de entrar na modernidade era enorme e todos os atalhos eram permitidos.
Resultado do efeito ilusório, que advém da continuada redução do peso do orçamento da Defesa Nacional no total da Despesa Pública, o que talvez muitos portugueses ainda não saibam, é que, com o fim da conscrição, o Estado passou a ter um maior encargo com pessoal na Defesa Nacional (no conjunto das FA e Ministério da Defesa). O modelo escolhido em 1999 só seria possível com um aumento significativo da dotação orçamental para a Defesa Nacional.
Agora, com o fim do SMO conjuga-se a insustentabilidade de uma organização profissionalizada e a não coerência, ou mesmo ausência de interesse nacional, nas missões desempenhadas. Observamos hoje as trágicas consequências deste desatino nacional: não há dinheiro para garantir um quadro operacional mínimo; não há dinheiro para investimento; não há dinheiro para promoções; e num momento de crise profunda como o que atravessamos, perdeu-se a única oportunidade de formação profissional e cívica séria que alguns portugueses tinham na vida. Hoje, mais do que ontem, o erro é evidente.
«(...) a Europa é gerida por um contrato social não escrito que permite aos eleitores transferir questões relacionadas com as políticas públicas para as elites, em troca de “pão e circo” e sob a forma dos benefícios do “berço até à cova”. Este comportamento acabou por institucionalizar-se e deu origem a uma classe política fraca que, entretanto, se especializou em subornar eleitores com quantidades intermináveis de dinheiro “emprestado”. As promessas eleitorais do caça ao voto são habituais e são poucos os que as questionam. De acordo com um artigo publicado no The New York Times, a Espanha é campeã nesta modalidade. O exemplo dado são os cerca de 20 mil milhões de euros prometidos por Zapatero na sua reeleição de 2008: para os 1,7 milhões de espanhóis elegíveis para votar pela primeira vez, o primeiro-ministro espanhol prometia subsídios de arrendamento e para a faixa etária abaixo dos 30 a construção de 150 mil casas de baixo custo. Ao mesmo tempo, piscou o olho ao eleitorado feminino, propondo uma carga de impostos inferior à dos seus pares masculinos. E estes são apenas alguns dos exemplos mais flagrantes. (...) O Estado Social, se quiser sobreviver, tem de ser reestruturado. Caso tal não aconteça, o resultado poderá ser mesmo uma inevitável extinção, com todos os problemas, ainda mais monumentais, que daí resultariam.»
in O “esquema Ponzi” do Estado Social europeu de Helena Oliveira
[Boardwalk Empire: The Birth, High Times, and Corruption of Atlantic City]
Falaram-me bem desta nova série que tem como um dos realizadores Martin Scorsese. O enredo passa-se em Atlantic City, New Jersey, durante os anos 20 americanos, em pleno período da lei seca. Estou curioso. Afinal pode surgir uma luz quando terminar de ver os magnifícos episódios do Downton Abbey. Voltarei ao tema quando começar a ver o Boardwalk Empire.
Se quisermos ter uma visão abrangente, teremos que reconhecer que a crise do euro se iniciou há mais de vinte anos, quando os parceiros europeus exigiram como condição para aceitarem a reunificação alemã, que este país prescindisse do marco alemão. A Alemanha aceitou essa exigência, mas também colocou condições, nomeadamente que nunca haveria qualquer tipo de ajuda a um país em dificuldades.
Da negociação europeia que conduziu à criação do euro surgiu todo um outro conjunto de fragilidades estruturais, para além da ausência de um orçamento significativo, imposto pela Alemanha.
Para além dos problemas estruturais, foi-se permitindo a acumulação de problemas, como os défices externos, que as regras existentes defendiam que não deveriam existir.
Permitiu-se inclusive que os Estados membros fornecessem informação falsificada, como foi o caso da Grécia e também o de Portugal (em 2001).
A crise do euro no seu sentido restrito iniciou-se após as eleições legislativas na Grécia, em Outubro de 2009, após as quais o novo governo do PASOK revelou a falsificação das contas públicas levada a cabo pelo anterior governo, tendo a estimativa de défice para esse ano subido inicialmente para 12,7% do PIB, posteriormente revisto para 15,8% do PIB.
É importante relembrar que a Grécia só conseguiu entrar no euro porque prestou declarações falsas sobre as suas contas públicas e os parceiros europeus nada fizeram para impedir a repetição deste facto, o que permitiu a “surpresa” de 2009.
A partir daí a Grécia tem liderado a crise do euro quase o tempo todo, tendo sido o primeiro país a pedir uma primeira ajuda, o primeiro a ver os seus programas de austeridade agravados, o primeiro a fazer uma restruturação da dívida (leia-se, a não honrar as suas dívidas), o primeiro a pedir um segundo pacote de ajuda.
A renegociação da dívida foi dificílima e chegar a acordo sobre uma nova assistência financeira ainda custou mais. Após uma maratona negocial em que parecia que tudo já estava resolvido, eis que os parceiros europeus insistem em que ainda falta esclarecer 325 milhões de euros de cortes. Julgo que é muito importante tomar consciência que este montante final representa apenas 0,15% do PIB grego (de 2011). Os gregos tiveram uma dificuldade brutal em conseguir fazer aprovar o novo pacote de austeridade e os negociadores europeus mantiveram uma inflexibilidade e insensibilidade total, exigindo o cumprimento das condições impostas, sem a menor margem de manobra.
Esta dificuldade grega e esta intransigência da troika é um terrível prenúncio de catástrofe. É possível que a nova ajuda ainda chegue a tempo para a amortização da dívida que deve ocorrer a 20 de Março, mas qualquer contratempo futuro pode despoletar o desastre.
Haverá novas eleições legislativas em Abril e as sondagens apresentam resultados muito preocupantes. Os partidos à esquerda dos socialistas do PASOK, que se opõem à ajuda externa, têm vindo a ganhar peso, estando próximos da maioria.
Se a extrema esquerda passasse para o poder iniciar-se-ia um processo de albanização da Grécia, começando logo com a saída do euro. Mas estes partidos não se entendem entre si, pelo que será impossível constituírem uma coligação de governo. E se os outros partidos precisarem dos deputados dos partidos mais à esquerda para conseguirem uma maioria? Como conseguir o apoio para aplicar medidas de austeridade de partidos cujo inédito sucesso eleitoral se deve à oposição a essas mesmas medidas?
Em resumo, é altamente provável que as eleições da primavera produzam um país ingovernável. Parece que nenhum governo será capaz de cumprir as condições de ajuda externa e chumbe logo nos primeiros exames trimestrais. Quando isso acontecer, a ajuda será interrompida e a Grécia deixará de pagar a sua dívida e será forçada a sair do euro.
Os líderes europeus estão convencidos que vão conseguir suster o contágio da saída da Grécia a outros países, em particular a Portugal, mas, dado o cadastro destes dirigentes políticos durante os dois últimos anos, é melhor não nos fiarmos na Virgem…
A melhor maneira de fugir a uma discussão séria sobre um tema é colocar-lhe um rótulo. Sobretudo se for um daqueles chavões tão populares como gastos pelo politiquês-correcto. Querem um exemplo? Em vez de se discutir a reforma do Estado, ou como vamos preservar o essencial do nosso estado social nestes tempos cinzentos, em que corremos o risco de não ter dinheiro sequer para salários e pensões, o espaço público está poluído com clichés superficiais. Fala-se muito em cortar a despesa (e ainda bem...) mas quase nada sobre o que queremos que venha a ser o Estado daqui a quinze ou vinte anos. Quais as funções do Estado que queremos preservar para não entrar em bancarrota? O que salvar para a casa não vir abaixo? No meio da discussão ou da falta dela, tenho ouvido a oposição falar dos perigos do neoliberalismo, mas sem explicar o que querem dizer com isso e que ideias alternativas propõem. E já agora porque razão acusam o Governo de ser o mais neo-liberal desde a fundação da nacionalidade? Suspeito que muitos destes protagonistas não sabem o que foi o liberalismo quanto mais essa coisa do neo-liberalismo. Acusam, enchem a boca, mas não sabem do que estão a falar. E nenhum jornalista tem coragem de lhes perguntar. Esta pobreza no debate ideológico é uma das causas do nosso bloqueio.
Uma das bandas mais importantes dos últimos 30 anos. A minha eterna gratidão aos Sonic Youth.
Parece que a Direcção do PS procura convergências à esquerda com uma obscura organização criada por dissidentes do PCP. Confesso que pensava que tal organização já não existia e de facto o seu último comunicado remonta a Julho de 2010. Achei uma iniciativa bizarra mas o PS saberá, perante a situação do país, quais as prioridades e as convergênicas que deve procurar.
Cinco dias depois, é ainda não completamente refeito do esmagamento sofrido com este obus impiedosamente atirado sobre a minha magra carcaça, que me disponho, tremendo de "ódio irracional" [sic], a prosseguir neste exercício feio que é o da "hipocrisia".
É confrangedor, é penoso, ver pessoas rebaixando-se na defesa à outrance da miséria apatetada da mais famosa intervenção do nosso primeiro-ministro: a denúncia, ainda que com olhar doce e testa franzida em profundidade fotogénica, da "pieguice" dos Portugueses. Pessoas que deviam ajuízar criticamente, dispõem-se a aceitar tudo o que venha de uma personagem pela simples razão de, precisamente, vir dela mesma. É uma espécie de acusação ad hominem ao contrário. "Digas os disparates que disseres, mostres a inépcia ou o descaramento que mostrares, está descansado que cá estaremos para te cobrir." Sob outra perspectiva, poder-se-ia também dizer: "atasca-te alegremente nos maiores dislates, exibe copiosamente a tua ignorância política, que a gente, em vez te ajudar a corrigir o tiro, aplaudirá ruidosamente tudo o que digas." Para mais, como podem, amanhã, ser essas pessoas levadas a sério, serem críveis, se, agora, se dispõem a aceitar acriticamente tudo o que provenha de um lado? Como, se, agora, aceitam degradar-se, pondo entre parênteses a sua honestidade, apenas por serviço a um lado? Dir-se-á que há, de facto, incontornavelmente, lados e que temos de os escolher. É verdade. Acrescento até: optar por um lado é rejeitar outro e deve-se rejeitá-lo efectivamente. Mas a partir de certo limites, uma tomada de partido equivale a um sacrifício descarado da honestidade e, sejamos cinicamente sinceros, pode até ser contraproducente para os pressurosos socorristas (dificilmente os levarão a sério quando forem recordados como sujeitos desprovidos de consistência) e para a desgraçada criatura pretensamente socorrida.
Inicialmente, a excitada defesa do primeiro-ministro denunciava a citação descontextualizada de partes do seu discurso. O homem falaria, não dos Portugueses em geral, mas apenas do pessoal escolar. Ora, depois de se verificar que não havia, afinal, qualquer descontextualização maliciosa, o argumento passou a ser então o de que havia matérias mais importantes a discutir do que esse deslize, esse descuido retórico do primeiro-ministro, um homem, como se sabe, bem intencionado, coitado. Apareceu ainda o interessante apelo a que recordássemos asneiras semelhantes de outros protagonistas que, injustiça das gentes, obtiveram reacções dissemelhantes. Por isto se vê que o importante é, dê por onde der, defender, proteger Passos Coelho - mesmo que se passe a aceitar o que um dia antes se negava indignadamente, etc. Estas posições, para além de desonestas, não são particularmente brilhantes. Quando se diz que há assuntos mais graves para discutir, assume-se, reconhece-se que, afinal, foi praticado um erro. E considerar que um primeiro-ministro, para mais nas condições políticas conhecidas, que chama piegas aos seus governados e que os divide entre qualquer coisa como "progressistas" iluminados (os que o seguem) e "atrasados" renitentes (os que o não seguem), não insulta as pessoas e não comete um erro grave fruto de ignorância política, é uma posição que não merece comentários, para além da consideração do desespero não ser, realmente, bom conselheiro... Por outro lado, quando vimos, ufanos, brandir um artigo, aliás, "um excelente artigo" [sic], recordando-nos excelentemente que também Jorge Sampaio se tinha queixado das "lamúrias" dos Portugueses e, que nessa altura, ninguém lhe tinha apontado o dedo como agora o fazem os "hipócritas cegos de ódio irracional", num exercício de "parvoíce", ao pobre Passos, esquecemo-nos de duas coisas: primeiro, um erro político presente não deixa de o ser por ter havido um semelhante no passado - pelo contrário, a repetição é menos desculpável; segundo, não são casos equivalentes, não se podendo assim comparar as reacções que ambos suscitaram. As palavras, as acusações políticas ("lamúrias" antes, "piegas" agora) não pairam num éter neutro independente dos locutores, do tempo, das condições, numa palavra, do contexto em que são proferidas. Essas palavras, num discurso político, não possuem um sentido "próprio". O seu sentido é-lhes fornecido, precisamente, pelo contexto. (O "contexto", sempre tão invocado pelos mesmos que, agora, convenientemente, o esquecem.) Portanto, a denúncia da "lamúria" por Sampaio não é, de todo, a acusação da "pieguice" por Passos.
Passos Coelho mereceu mil vezes todas as piadas da pieguice que lhe atiraram na manifestação da CGTP, no passado Sábado. Se ele continuar com esses comentários infelizes, teremos de considerar como compreensíveis alguns possíveis comportamentos, ainda que, doutra perspectiva, ilegítimos. O discurso do primeiro-ministro não é desculpável. Não há volta a dar-lhe. (Pensando na Gertrud Stein, apetece dizer: uma idiotice é uma idiotice é uma idiotice.) Os seus partidários deviam antes baixar a cabecinha discretamente.
Não se reconhece nenhum pensamento original a Passos Coelho (para além da originalidade de ter lido livros de Sartre que o filósofo nunca escreveu), nenhuma competência científica para vir espraiar-se em considerações antropológicas a respeito dos Portugueses. Para mais, foram eles que o elegeram. De resto, se os Portugueses fossem "exigentes" e "menos complacentes", como ele mesmo preconiza que sejam, Passos não seria primeiro-ministro. A "exigência" falhou logo na reeleição de Sócrates e, a seguir, falhou também entre os militantes do PSD.
No presente, para com Passos, os Portugueses, mais do que piegas, têm sido pacientes. Mas, amanhã, um Português em dificuldades, passando por verdadeiras e injustas dificuldades, dessas de que não nos ocupamos aqui nos blogs, um tipo com a vida destruída e sofrendo com isso, contemplando incrédulo a inconsciência do primeiro-ministro, poderá muito bem exprimir-se num vernáculo que terá, então, um verdadeiro alcance moral:
"Piegas"?! E se fosses à merda?...
No último Sábado, dia 11 de Fevereiro de 2012, assinalaram-se cinco anos sobre o referendo que abriu caminho à liberalização do aborto em Portugal. Do aborto legal em caso de violação, malformação do feto ou perigo de vida para a mãe passámos para a legalização do aborto a pedido. Já vai sendo tempo de fazer um balanço da aplicação da lei que o Governo de então, liderado por Sócrates, nos prometeu respeitadora das “melhores práticas”.
Um estudo recente da Federação Portuguesa Pela Vida revela alguns números que fazem pensar. 97% dos 80 mil abortos legais desde 2007 foram enquadrados na cláusula “por opção da mulher”, um facto previsto pelos defensores do “não”, mas sempre minimizado. 60% das mulheres que abortaram têm entre 24 e 39 anos e cerca de metade o ensino secundário ou superior, contrariando o mito de que o aborto seria uma solução de último recurso para adolescentes pobres e desinformadas. 16% dos abortos legais são reincidências, ou seja, por 13 500 vezes o aborto foi usado como um método anticonceptivo no quadro da actual lei.
As clínicas privadas beneficiam hoje de um verdadeiro subsídio ao seu negócio: cerca de 70% de abortos no sector particular foram encaminhados por hospitais públicos. Vale a pena recordar que só a Clínica dos Arcos, em Lisboa, faz perto de cinco mil abortos por ano - pagos pelos nossos impostos. Em Portugal, os lucros da indústria abortista são os únicos que a esquerda tolera.
Ao lado de todos estes números, há um bem menor mas não menos inquietante. A legalização não acabou com a morte por aborto e, desde 2007, houve uma mulher que morreu na sequência de um aborto medicamentoso legal (por tristíssima ironia, aquele que nos garantiram ser mais seguro).
Esta é a frieza das estatísticas. Mas o pior de tudo é a banalização do mal, para usar o conceito de Hannah Arendt, que a mudança legislativa introduziu na sociedade. A mentira do aborto neutro e sem vítimas deu lugar a um silêncio cúmplice e sem consciência. A lei que mata inocentes gera hoje o conformismo porque, em democracia, a lei gera a moral pública. Nem todos nascemos para Antígona.
Nem todos nascemos.
*12/2/2012
O governo espanhol também não está a ter uma vida fácil, tem dois sérios défices para resolver: o das contas públicas; e o do sector eléctrico. O Governo que pouco tempo após tomar posse admitia para 2012 um corte no orçamento do Estado espanhol de 16 mil milhões de euros para corrigir o défice das contas públicas, veio este ano informar que será necessário mais, qualquer coisa perto dos 40 mil milhões de euros. Mas Espanha tem outro grave e importante défice – um défice tarifário no sector eléctrico que atingiu os 28 mil milhões de euros, dos quais ainda estão por pagar 23 mil milhões de euros, e desse valor só está “securitizado” um valor de 13 mil milhões de euros, estando o remanescente ainda a ser financiado pelas empresas do sector. O irónico da situação é que este último défice chegou às mãos de Rajoy “na volta do correio” - o défice tarifário foi uma criação inicial do anterior Governo do PP em 1996, para garantir uma descida do preço da electricidade. Uma criação que os socialistas espanhois souberam cuidar e alimentar.
A esquerda portuguesa tem boa imprensa. A CGTP também. Mesmo assim parece exagerado ver aqui as 300.000 pessoas com que os sindicatos comunistas, logo secundados pela generalidade dos jornais e televisões, encheram a boca durante todo o fim-de-semana. A polícia optou por não fazer estimativas, tal como o Governo. Tenho enorme respeito pelas pessoas que no Sábado foram para a rua. Muitas delas com razões legítimas e válidas de protesto e indignação. Mas não vale a pena exagerar nos números. Eu sei que Lenine continua bem vivo pela Soeiro Pereira Gomes, tal como as suas técnicas de propaganda, mas não exageremos camaradas. A fotografia aérea foi tirada do Jornal de Notícas, que tem um interessante video aéreo da manifestação de Sábado no Terreiro do Paço.
Acho absolutamente indigno qualquer tipo de ameaça, velada ou não, vinda de associações de militares ou de sindicatos de polícia dirigida ao poder democrático ou às respectivas hierarquias. Mas há gente a quem estranho o incómodo destas reivindicações, hoje espantam-se com o teor das cartas das associações de militares e amanhã vão estranhar as dos sindicatos de polícia. Mas o que pensava esta gente que iriam ser estas organizações quando aplaudiram a sua criação (ou não tiveram a coragem de contrariar), clubes de bridge?
E esta opinião vinda de quem acha 'uma vergonha' que 33% dos abortos sejam feitos em clínicas privadas em vez de pagas pelos contriuintes. (É que, sabem?, uma mulher pode escolher terminar ou não com uma vida que tem dentro da barriga, mas já poder escolher entre um hospital público e uma clínica privada é liberdade em demasia. Digam lá se isto não é o apogeu do socialismo?).
E se o CDS parece ter alguma sanidade nesta questão, já este PSD - tão moderno! - indicia pretender seguir o caminho do PS: não se realizam os estudos prometidos aquando do referendo, que assim nunca se vai poder discutir o aborto precisamente por falta de estudos.
As caixas de comentários desta série têm várias confusões entre análise normativa e análise positiva, talvez porque eu não esteja a fazer uma distinção suficientemente clara entre elas.
Quando um médico diz que, a continuar a alimentação que tem seguido, o colesterol vai aumentar, está a fazer análise positiva, sobre como as coisas são, independentemente do que pensamos sobre elas. Quando o médico recomenda que deixe de comer queijo da serra e outro tipo de produtos que aumentam o colesterol é que está numa atitude normativa, de recomendação sobre como as coisas deveriam ser.
Quando falo no fim do euro, escrevo-o numa análise positiva, no sentido que falei acima (por amor de Deus, não venham com a confusão de dizer que eu acho que o fim do euro é uma coisa positiva!). Prevejo que o euro deixe de ser a moeda portuguesa em 2012, independentemente de também achar que isso vai trazer gravíssimos problemas económicos e sociais. Apesar de achar que o fim do euro será uma calamidade, considero que a falta de decisões dos líderes europeus vai levar ao fim do euro em Portugal. Posso estar certo ou errado, mas é uma afirmação no plano positivo, não é uma recomendação.
Quando escrevi que a saída da Grécia não implicava a saída de Portugal, mas a saída de Itália sim, estava a fazê-lo no plano positivo. Quando estamos na presença de um tsunami, o facto de não gostarmos dele não afecta em nada o facto de sermos arrastados por ele.
Quando defendo que, após a saída do euro, devemos voltar às restrições de circulação de capitais que vigoraram até 1992, já estou a fazer uma afirmação normativa, de recomendação. Quem sugere outra política está também a fazê-lo no plano normativo.
Quando sugeri um nome para a nova moeda portuguesa, também estava numa atitude normativa, embora seja um ponto sobre o qual não faço grande questão, razão pela qual até criei uma votação sobre essa designação, que decorre até 27 de Fevereiro.
«É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha a longo prazo, não se isolar e não se deixar isolar. Um isolamento no espaço do ocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da EU ou da zona euro seria ainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugar inequivocamente mais importante do que qualquer interesse tático de todos os partidos políticos. Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever de defender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública. Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão na Europa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa que aparições adequadas às televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantes do que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, Haia Copenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» - então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.»
[Discurso de Helmut Schmidt no Congresso do SPD, em Berlim, 4 Dezembro 2011]